domingo, 4 de outubro de 2015

Uma vida, agora sem ti.

  


   Faltou a coragem, eu assumo. Faltaram as palavras e a pontuação certa. Foi como se quisesse ficar muda para o mundo sobre este assunto. Não por medo, nem por ódio, apenas por amor. Pelo amor que guardo de ti que até hoje não permitiu que assumisse que te perdi. Pelo amor daquela que cresceu do teu lado e que em poucos anos inverteu os papéis e passou a ser ela a ensinar-te o certo e o errado. Pelo amor de sobrinha e afilhada. E pela saudade. Pela saudade eterna.
   Hoje rendo-me à linha da vida e compreendo o tamanho da tua, era tão pequena. E tenho que te relembrar que tiveste grande influência nesse comprimento. É tio, eu avisei-te tantas vezes... Mas agora, de pouco ou nada me serve porque a tua ausência aumenta um vazio dentro de mim, e eu juro que nunca pensei dizer isto, mas fazes-me tanta falta, nem que fosse só para te lembrar que não te queria a fumar dentro de casa, que devias procurar um emprego, ou que queria que fosses tirar a carta de condução. Mas talvez tenha sido melhor assim.
   Um mês e meio é pouco tempo para eu estar verdadeiramente mentalizada. Talvez o meu subconsciente ainda ache que estás num navio, como estiveste tantas vezes. És o meu marinheiro. E sabes que apesar das tuas mil tentativas falhadas em ensinar-me a nadar, eu gosto do mar tanto quanto tu. E se navegas eternamente nele, deixa-me recordar-te que vou navegar a vida e que vou ancorar somente quando sentir que é o melhor para mim.
   Fumaste a vida. Fumaste-a completamente. Só espero que te tenha dado prazer. Que tenhas partido satisfeito, sabes que sempre quis o melhor para ti.
   Agora faço-te uma promessa, cumprirei o que sempre me pediste: nunca te tomarei como exemplo. Prometo que terás o maior orgulho do mundo na tua afilhada e que daí de cima vais cuidar de mim, como um tio cuida da sua sobrinha e como um padrinho cuida da sua afilhada. 
   Perdoa-me por não te ter dito isto mais vezes, mas eu juro que te adoro. 

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Espera por mim...



"Mas tu não voltas, partiste para outro mundo, deixaste-me aqui bem no fundo. Só peço por mais um segundo...volta só por um segundo."

   Senti-me sufocada demais para te escrever ontem por isso só o faço hoje, espero que me perdoes.
   Recordo as memórias, não te sinto a viver no passado, és parte de mim, és o meu presente. Refiro-me a ti como se cá estivesses, mas é um enorme vazio e uma saudade de ti (...) eram 76 anos não é? 16 do meu lado.
   Ainda sinto os teus abraços, ainda ouço os teus amuos e as frases de conforto "anda cá ao avô, minha menina" (...) lembras-te que me habituaste mal a arrumar os brinquedos porque o fazias por mim? lembraste quando pedíamos os dois para a avó fazer batatas fritas? Quase chorávamos de joelhos... lembraste de passearmos e teres de me levar ao colo porque tinhas um passo enorme? Lembras-te de me levares de mão dada quando ia vestida de anjinho na procissão?
   Sou uma autêntica menina dos avós e é fácil compreender, devo-te a ti e à avó mais de metade do que sou hoje, eram mais que meus pais durante o dia, e tanta vez foram durante a noite quando a mãe e o pai tinham que trabalhar. Tantos beijinhos nos 'dói-dóis', na testa e na cabeça. Tanto mimo e aconchego...nunca falharam.
   Não me faltaste com nada, cuidaste de mim com todo o amor do mundo e agora sinto que nem isso posso retribuir. Perdi-te demasiado cedo para te dizer as vezes suficientes que te amava, agora conscientemente e de forma matura.
   Perco-me nas memórias e nos sonhos, iria oferecer-te chocolates, sei que adoras e íamos comer a caixa juntos. Isso eu tenho a certeza que herdei de ti. 
   Queria-te ao meu lado no dia do meu crisma, queria ter o teu apoio quando fui operada, queria que me visses a acabar o curso, a tirar a carta e a arranjar o primeiro emprego, mas em nenhum desses momentos posso contar com o teu abraço. Contudo, sei que olhas por mim e por nós, e sabes que temos uma saudade incrível de ti.
   Agora sabes que passo algumas tardes junto da tua sepultura, sinto que temos sempre conversas para pôr em dia, e eu sinto-me bem sentada ao teu lado. Não te levo velas nem te faço arranjos de flores, sabes que ambos preferimos umas belas horas de conversa. Estamos juntos no próximo sábado?

Parabéns a você, nesta data querida (...) cantam as nossas almas, para o meu enorme guerreiro, uma salva de palmas." (03.08.1939 - 26.11.2013) 
Uma vez juntos, sempre juntos, prometo. Orgulho de neta.


Até sempre, avôzinho.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Fecha o livro, a história acabou.

  

 "Eu importava-me, tu não. Chegou a hora disso mudar."

   Tinha que contar-te. Seria egoísmo se não partilhasse contigo a minha glória depois de ter partilhado todas as desilusões. Sinto-me livre. 
   Conto pelos dedos de uma mão as vezes que ainda me lembro de ti, e acredita, ainda sobram dedos. Sinceramente, não podia estar mais orgulhosa por ter deixado para trás aquilo que já não permitia que seguisse em frente.    
   Tu conheces-me, sabes que sou de ideias fixas, mas que em contrapartida, de decisões instáveis. Um ser incompreendido por ele próprio. Mas em verdade te digo: não vou voltar atrás. 
   Provavelmente anuncio-te o maior passo que dei nos últimos tempos, e até podes achar que contar-te seja recuar, mas eu quero que saibas que já gastei demasiado tempo contigo e connosco, com uma esperança cadavérica e uma desilusão profunda, pois infelizmente guardo pouco de bom, mas o que guardo ninguém me tira, juro-te. Juro-te pela última vez.
   Sigo de consciência tranquila porque sei que algo hei de ter feito certo, dessa forma, irás lembrar-te de mim, mesmo que não queiras. E lamento apenas que já não sinta nada por alguém que já me fez sentir tudo. 
   Um aplauso para a tua capacidade de me cansar  e destruir o sentimento que existia. Um aplauso por todas as vezes que me iludis-te. Um aplauso por todas as vezes que me usas-te. Um aplauso por todas as vezes que me deixas-te. E um obrigada sincero, por me teres mostrado tudo aquilo que não quero para mim. 
   Talvez um dia eu te encontre por aí.